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Uma papoila para Maria Keil

O Movimento Democrático de Mulheres, Núcleo de Viseu, visitou no passado Sábado a Exposição “De propósito: Maria Keil, obra artística”, que esteve patente no Solar do Vinho do Dão desde o início do passado mês de Dezembro e que hoje encerra. Mais do que conhecer a obra extraordinária que esta “operária das artes” nos deixou, fomos à procura da amiga Maria Keil, a lutadora das causas das mulheres, a autora do símbolo que ainda hoje identifica o MDM – uma papoila rubra. Foi essa mulher de causas que encontrámos diante do Estudo para Regresso à Terra obra perante a qual a emoção é inevitável. A beleza do trabalho é soberba. Pensar que a pintura original foi apreendida pela sinistra PIDE, confere a este esboço um significado impressivo e incontornável, coloca-nos perante a Mulher de Abril que nem sempre as biografias retratam. É esse exemplo de mulher combativa, defensora de valores democráticos e progressistas, que revemos nas vinhetas para as secções temáticas da revista Seara Nova, um importante espaço de combate à ditadura de Salazar. O mesmo acontece ao contemplar o cartaz Por um Portugal Livre e Melhor, Vote CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática). Ainda pequena, Maria Keil assistiu em Silves à luta operária dos corticeiros o que muito terá contribuído para o desenvolvimento de uma forte consciência social e política. Defendeu os ideais democráticos, a liberdade e a igualdade. Foi presa em Dezembro de 1953 pela PIDE, por ter ido receber Maria Lamas ao aeroporto de Lisboa, após ter participado no Conselho Mundial da Paz e no Congresso Mundial das Mulheres. Durante cerca de um mês esteve presa com outras mulheres em Caxias. Neste contexto assumiu a defesa dos direitos da Mulher, associando-se a movimentos feministas e de oposição ao regime como o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP) cuja sede foi selada pela PIDE em Junho de 1947. O mandato, da responsabilidade do governo Civil de Lisboa, terá justificado o encerramento dizendo não haver razões para preocupação com a situação das mulheres portuguesas pois a Obra das Mães bastaria para o encargo de as educar e orientar. Procurámos o cartaz da sua autoria para a exposição Mulheres Escritoras de Todo Mundo, sem sucesso. A sua vida cruza-se com a vida do MDM: como membro que integrou o Conselho Nacional durante vários anos, participando ativamente no imenso trabalho desenvolvido após a revolução, na conquista de direitos tão básicos como a licença de maternidade. Em 1999 foi agraciada com a Distinção de Honra – MDM, atribuída a mulheres que se destacaram neste trabalho. Foi subscritora do Movimento de Cidadania e Responsabilidade pelo Sim à Despenalização do Aborto, tendo doado dois desenhos para o leilão de angariação de fundos deste movimento. Sobre toda esta intervenção cívica não encontrámos qualquer referência na exposição. No Estudo para selos comemorativos do Ano Internacional da Mulher (1975), são operárias e ceifeiras, mulheres trabalhadoras, que encontramos. Disse de si mesma, ter sido uma espécie de operária das artes, pois desenhou e pintou para governar a vida a ajudar a pagar as despesas. Terá trabalhado um ofício com aquilo que alguém designou por “gosto amoroso e feminino” que se contempla nos motivos, na luz, no modo de tratar os tons e as cores delicadíssimos. Traços de uma artista no feminino segundo alguns estudiosos. Na contemplação das figuras profundamente femininas que povoam a sua obra sentimos o que Maria Helena Souto escreveu a propósito das suas ilustrações: “Quase sem querer, propôs uma ética: cada personagem, cada um de nós, se estiver atento ao que o rodeia, nasce para ser árvore dançando no meio da praça.” . Pelo MDM – Núcleo de Viseu Filomena Pires

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