de Dennis Potter,
com encenação de João Ferreira.
[Do cimo da colina poderemos reflectir, mas será necessário atravessar primeiro este bosque.]
É na esperança absoluta no nascer do sol no dia seguinte, de uma criança que vê o sol esconder-se ao longe, que está a pureza definidora da beleza humana.
Foi convicto deste pensamento que aceitei reler "Azul Longe nas Colinas", de Dennis Potter, num tempo onde urge uma chamada de atenção ao Homem sobre si mesmo e sobre os desígnios da sua existência. A reflexão carece de um espaço alto, que só o cimo desta colina, rodeada de um bosque denso e imenso, nos permitirá ter.
Perdidos na inocência da luta pela aceitação natural no corpo colectivo que os move, misturam-se as vidas de outros, que observam. Entre referências socioculturais e familiares, os gestos destas crianças tornam gritantes as maiores fragilidades na ética deste contínuo, absolutamente complexo, que é o ser humano.
Não há nada de complicado nesta ficção. É durante o vazio ético dos anos 40 que os verdes campos ingleses se abrem para o palco dos jogos de faz-de-conta, que assassinam falsos soldados, que pintam de sangue a terra negra, que julgam, que enganam, que mentem, que batem e ferem e esquecem. É na sua tarde, perdidos num bosque que os esconde, que se permite assistir à banalidade do mal. É a alegria e genuinidade, que se torna ingenuidade nos piores dos actos, que afirma a ficção desta história.
Não fossem os olhares adultos dos actores, que executam este Teatro de faz-de-conta, num paralelo com o julgamento ético da nossa condição humana, disfarçado pelo Klezmer, por esta música que esconde o choro com alegria, que nos mesmos anos 40, fora da ficção, serviu de última sonoridade à vida desse povo nómada, e esta peça poderia terminar de forma lírica, romântica, e com o perdão calado do público, que assiste sereno.
Mas reconheçamos que também sabemos ser maus.
REPORTAGEM (X) 5 – Prémio GICAV BD Paulo Monteiro é um autor de banda desenhada e ilustrador, nascido em Vila Nova de Gaia, que se formou em Letras e História de Arte pela Universidade de Lisboa e se radicou em Beja desde 1993. Desde 2005, dirige a Bedeteca de Beja e o seu festival internacional, tendo publicado três livros de BD e percorrido escolas e eventos na Europa, Angola e Brasil para promover a banda desenhada. Realiza conferências e exposições sobre banda desenhada e visita escolas em Portugal e no estrangeiro. Está envolvido na criação do Museu da Banda Desenhada em Beja, do qual tem sido o maior defensor e promotor. Prémio Especial GICAV BD PAULO MONTEIRO Beja
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