Uma mulher foi executada, acusada de adultério. Em Maarrat, no norte da Síria, pelo grupo Jabhat al-Nusra. Foi morta com um tiro na cabeça no meio da rua, enqua...nto o mundo e a vida lhe passavam ao lado. Foi filmada com telemóvel, como quem assiste a um espetáculo de rua e faz disso registo para mais tarde recordar. Execução sumária, com direito a umas quantas lamúrias retóricas, e um coro final de "Deus é grande". O tal deus que tudo legitima, cada vez mais longe do deus de amor. Uma mulher ajoelhada, indefesa, rodeada de homens armados. Fica a pergunta: é aquela execução sumária ou é a indiferença seca, fria, banal, o que mais choca? Espetáculo para amedrontar as massas em forma de rotina legitimada por um ente superior. Sem nome. Sem história. Sem petições a implorar a sua libertação ou clemência. Sem vigílias. Sem desfiles em sua memória. Somente uma mulher corajosa que enfrentou os seus carrascos com uma dignidade majestática e que apenas pediu - o que não lhe foi concedido - para ver os filhos. Sem gritos. Sem condescendências. Sem piedade. E sem uma lágrima. Apenas o luto.
REPORTAGEM (X) 5 – Prémio GICAV BD Paulo Monteiro é um autor de banda desenhada e ilustrador, nascido em Vila Nova de Gaia, que se formou em Letras e História de Arte pela Universidade de Lisboa e se radicou em Beja desde 1993. Desde 2005, dirige a Bedeteca de Beja e o seu festival internacional, tendo publicado três livros de BD e percorrido escolas e eventos na Europa, Angola e Brasil para promover a banda desenhada. Realiza conferências e exposições sobre banda desenhada e visita escolas em Portugal e no estrangeiro. Está envolvido na criação do Museu da Banda Desenhada em Beja, do qual tem sido o maior defensor e promotor. Prémio Especial GICAV BD PAULO MONTEIRO Beja
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