
Não, não se vai falar de política; de autocracias ou despotismos, por mais esclarecidos ou iluminados que sejam. O pretexto aqui é outro: esteve em exibição no Teatro Viriato, de 6 a 9 de Julho, a peça de teatro N40º3W7º5 ROSSIO, criação colectiva de mais de uma vintena de viseenses (porque aqui vivem ou por cá circulam), com concepção, direcção e encenação de Fraga. Releve-se que para a maior parte dessas pessoas ― também actrizes e actores da cena ― este era o primeiro contacto com o teatro e com o palco; outros, poucos, tinham sido alunos do Prof. Jorge Fraga, que rege cadeiras de expressão dramática na ESEV, do Instituto Superior Politécnico de Viseu; isto é, o mesmo Fraga encenador, mas agora num desempenho docente.
Ora, nem o Teatro Viriato nem Fraga são dados a amadorismos; nem são frenéticos voluntários da “animação cultural”, parceiros jantantes de folclóricas confrarias regionais ou compulsivos adeptos de experiências comunitárias, só por serem comunitárias. Então, como é? …
É que isto de amadores e amadorismo tem que se lhe diga, para lá das semelhanças etimológicas e semânticas: amador, podendo também referir-se a quem desenvolve uma actividade sem competência ou zelo, qualifica sobretudo um desempenho por amor, por prazer, sem dependências materiais e profissionais desse desempenho; e amadorismo, embora possa indicar uma prestação desinteressada, a maior parte das vezes designa uma atitude pouco cuidada, pouco rigorosa; enfim, pouco consciente da importância que, de facto, tem. E este foi um trabalho de amadores… sem amadorismos.
Quanto ao encenador, não se resiste a contar um pequeno, mas significativo, episódio, testemunhado de perto: Raul Solnado, emblema multiforme do palco e do teatro, de férias sorrateiras em Viseu, ia assistir no IPJ a uma sessão do Cineclube; Fraga entrou e, passando pelo actor, cumprimentou-o discretamente, sendo retribuído com um abraço igualmente discreto. Com tanta discrição que o amigo que acompanhava Solnado, talvez temendo a sua já notória falta de memória (menos de um ano depois morreu), mas certo da sua gentileza em sempre responder a um cumprimento, segredou-lhe, a seguir: “É o Fraga; dirigiu-te no Teatro da Trindade, quando encenou O Magnífico Reitor.” E a resposta veio, imediata, com bonomia: “Obrigado por te preocupares com a minha velhice, mas quem algum dia trabalhou com o Fraga nunca o esquece; nem a ele, nem ao rigor e à competência do que faz. Só me surpreendeu vê-lo em Viseu mas, de facto, este ‘gajo’ tanto está bem aqui como em Nova Iorque”.
Pois bem, este é Fraga, andarilho, que pode estar em Viseu ou em qualquer outro sítio, estrangeiro em qualquer lugar, que é a melhor forma de se ser autóctone. Sempre com a consciência universal de que teatro é texto e som, corpo e movimento, problematização e bem-estar.
Num mundo ― que não é só viseense, português ou europeu ― de gosto padronizado, de unanimismos cacofónicos e repetidores, num horizonte de consensos acríticos, o que vale mesmo, embora muito pouco se pratique, é pensar no que se vê e sente; no que se faz, para que se faz e como se faz. A criação artística e as práticas culturais têm, aí, um lugar insubstituível; e Fraga é parte dessa minoria absoluta.
Autor do texto: João Luís Oliva
Jornal do Centro, nº 489, 29/7/2011, p. 31.
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